O claudiense Elmo Fernandes, professor e autor da letra do Hino a Cláudio, utilizou a Tribuna Livre da Câmara Municipal, na sessão plenária de segunda-feira (31), para apresentar uma reflexão sobre a origem do nome do município e registrar nos anais do Poder Legislativo parte de uma pesquisa histórica que pretende aprofundar.
A manifestação ocorreu um dia após as comemorações pelos 115 anos de emancipação político-administrativa de Cláudio, ocorrida no domingo (30). Logo no início, Elmo explicou que sua intenção era deixar documentado na Câmara um aspecto da história local que, embora faça parte da tradição oral, segundo ele ainda comporta novas pesquisas.
“Eu fiz questão de estar aqui hoje para que fosse registrado em ata, nos anais desta Casa, uma pequena história, sobre a qual muitos já conhecem, mas que é sempre bom que venha à memória”, afirmou.
Elmo abordou a tradição segundo a qual o nome de Cláudio teria origem em um homem escravizado chamado simplesmente Cláudio, que teria vivido na região no século XVIII. Ao reconstruir as diferentes denominações atribuídas ao território ao longo do tempo, falou sobre referências ao Ribeirão do Cláudio e à posterior Vila de Aparecida do Cláudio, até a consolidação do nome atual.
O professor ressaltou que pretende continuar pesquisando documentos e registros que possam fornecer novos elementos sobre a presença e a trajetória desse personagem. Um dos pontos centrais de sua manifestação foi a reflexão sobre a permanência do nome Cláudio mesmo em uma sociedade marcada, naquele período, pela presença de famílias influentes, coronéis e barões.
“Esta cidade tirou coronéis, tirou barões, tirou até nome de santos e se tornou simplesmente Cláudio”, afirmou.
Elmo também apresentou, como resultado ainda em aprofundamento de sua pesquisa, a hipótese de que Cláudio teria uma característica rara ou mesmo singular entre os municípios brasileiros ao conservar como nome a referência a uma pessoa que viveu na condição de escravizada.
Aberta as discussões, os vereadores presentes se manifestaram.
Maurilo do Sindicato (PL) ressaltou o caráter acolhedor de Cláudio e afirmou que desconhecia a informação apresentada por Elmo sobre a possível singularidade do nome do município.
O vereador também destacou a presença frequente do professor nas comemorações e atividades culturais da cidade.
Elmo reside atualmente em Divinópolis, mas mantém vínculos familiares e participação constante em eventos realizados em Cláudio.
Evandro da Ambulância (PL) também comentou diferentes momentos da formação administrativa do município e incentivou Elmo a aprofundar o levantamento histórico.
O parlamentar destacou que muitas pessoas conhecem apenas parcialmente as versões sobre a origem do nome da cidade e avaliou que uma pesquisa mais ampla poderia, futuramente, resultar inclusive em uma publicação dedicada à história local.
Elmo voltou a se manifestar durante o debate e chamou atenção para o fato de que, em sua avaliação, lideranças políticas da época poderiam ter buscado outros nomes para o município, mas prevaleceu a denominação ligada a Cláudio.
A vereadora Rosângela Diretora (PSDB) destacou o conhecimento compartilhado durante a sessão e afirmou que a apresentação contribuiu para ampliar a compreensão da própria comunidade sobre a história local.
“Muito importante essa explanação que você fez sobre a história da nossa cidade. É importante para que todos aqueles que estejam assistindo pelas redes sociais possam adquirir esse conhecimento”, afirmou.
Ao final da participação de Elmo, Rosângela voltou a pedir a palavra e ressaltou que educadores e moradores também precisam buscar constantemente novas leituras e pesquisas sobre a história de Cláudio. “Somos eternos aprendizes, e ouvir a fala do Elmo enriquece muito os nossos conhecimentos”, declarou.
Geraldo Lázaro dos Santos, o Tindora do Chico Vilaça (PSB), relacionou o assunto apresentado por Elmo à presença negra na história política do município.
O vereador lembrou que foi o primeiro negro a presidir a Câmara Municipal de Cláudio, além de ter disputado eleições para prefeito e vice-prefeito e exercido mandatos no Legislativo.
Segundo Tindora, a apresentação contribui para ampliar a reflexão sobre trajetórias que nem sempre receberam o mesmo espaço nos registros históricos.
“A presença do senhor aqui foi fundamental para poder valorizar mais o nosso conhecimento e esse momento festivo que a nossa cidade está vivendo”, afirmou.
O vereador Nivaldo (PDT) afirmou que parte das informações apresentadas era desconhecida por ele e destacou a clareza da exposição.
O parlamentar também convidou Elmo a retornar à Câmara quando houver novos resultados da pesquisa.
“Logo que você tiver mais alguma coisa, volte aqui para relatar para as outras pessoas aquilo que você encontrou”, pediu.
O vereador Darley Lopes (PDT), que lembrou ter sido aluno de Elmo, destacou a relevância da exposição e ressaltou a importância de divulgar mais amplamente a origem do nome do município.
Darley também lembrou que Elmo é autor da letra do Hino a Cláudio e afirmou que sua contribuição já integra a memória cultural da cidade.
Durante a manifestação, o vereador levantou uma possibilidade para discussão futura na Câmara, no sentido de avaliar se a homenagem atualmente relacionada à Medalha Zumbi dos Palmares, que ocorre em novembro, poderia passar a fazer referência também ao personagem histórico que teria dado nome ao município.
“Se nós temos um escravo que dá nome à cidade, a medalha que homenageia o povo negro... por que não ter o nome daquele que surgiu o nome da cidade?”, questionou.
Darley deixou claro que a ideia surgiu durante a própria exposição e ainda precisaria ser analisada quanto à forma e à viabilidade.
O vereador Frederico Amorim (Avante) ressaltou a trajetória profissional de Elmo Fernandes e sua contribuição para a educação, além de lembrar também das participações do professor em veículos de comunicação e programas voltados à Língua Portuguesa.
Frederico afirmou acompanhar o trabalho de Elmo há anos, desde o período em que morava na comunidade rural de Ribeirão do Cerro, quando o ouvia pelo rádio. Durante a conversa, também mencionou as participações do professor em emissoras de televisão, momento em que Elmo informou que atualmente mantém participações com dicas de português.
“Você contribui muito com a educação do município, com a educação do Estado e até do Brasil. É muito bom a gente ter pessoas próximas de nós que são pessoas à frente do seu tempo”, afirmou Frederico.
Ao final, o presidente da Câmara, Simental (Avante), agradeceu a presença de Elmo e lembrou inclusive ter sido aluno do professor em curso preparatório no início dos anos 2000.
O presidente destacou a participação frequente do claudiense em eventos e homenagens realizados no município e abriu espaço para suas considerações finais.
Elmo encerrou dizendo que pretende continuar investigando a trajetória do personagem associado à origem do nome da cidade e a permanência da denominação ao longo das gerações.
“Eu acredito que vereadores, como os senhores, lutaram para que se reverenciasse o nome de alguém que realmente lutou por este Brasil e fez este Brasil crescer a preço de sangue, a preço de lutas, a preço de quilombos”, afirmou.